Como me tornei uma mulher | Marilia Kubota
Mosaico - Crônicas - 09
Como me tornei uma mulher
Por Marilia Kubota
A primeira vez em que ouvi a palavra sororidade foi em 2006 , num evento literário que organizei em Curitiba. Foi o contato inaugural com o feminismo. Até então, não relacionava os vários traumas envolvendo feminilidade e sexualidade sofridos desde a infância com o fato de ter nascido mulher. Mulher que gosta de pensar: o tipo mais odiado pela sociedade conservadora.
Desde esta época aprendi muito, particularmente nos últimos três anos, quando aderi ao movimento Mulherio das Letras. A interlocução com escritoras independentes, veteranas ou iniciantes, me fez entender o que é sororidade. Mulheres pensadoras e artistas são, por si, um fenômeno. Temos que vencer muitas batalhas para provar que "escrevemos tão bem quanto um homem." A primeira batalha é poder nos enxergar como irmãs, não inimigas.
Não foram poucas as vezes em que fui ofendida por organizar eventos com mulheres. Ofensas de todos os tipos: de piadas étnicas, referências à minha depressão sazonal e ao fato de eu nunca ter casado, embora tenha tido relacionamentos estáveis. As ofensas não vieram só de homens. Sabemos que homens que odeiam mulheres preferem nos manipular para atacar as insubmissas. Muitas manas acabam caindo no velho jogo, incapazes de saírem desta tutela.
Não foram poucas as vezes em que fui ofendida por organizar eventos com mulheres. Ofensas de todos os tipos: de piadas étnicas, referências à minha depressão sazonal e ao fato de eu nunca ter casado, embora tenha tido relacionamentos estáveis. As ofensas não vieram só de homens. Sabemos que homens que odeiam mulheres preferem nos manipular para atacar as insubmissas. Muitas manas acabam caindo no velho jogo, incapazes de saírem desta tutela.
Ofensas deste tipo são abusivas, mas não tão violentas quanto as que maculam o direito que temos de decidir sobre o que queremos com o corpo. Desde escolher o que vestir, não fazer dieta, pintar ou não os cabelos, depilar ou não, até fazer aborto ou dizer não a um relacionamento. Uma mulher pensar e decidir se quer continuar ou sair de um relacionamento é ofensivo para os obtusos. Assim mostram as estatísticas de feminicídio.
Levou tempo para eu aprender como funcionam os mecanismos de exclusão e submissão da velha ordem. Tolerante ao feminismo de vitrine (que declara nas janelas combater a misoginia, mas o acoberta quando conveniente), é intolerante com quem estimula a construção de redes de resistência que nos tornam amigas e companheiras.
Conversar com mulheres inteligentes e sensíveis é uma transformação. Muitas de nós gostaríamos que nossas avós e mães pudessem ter vivido num contexto em que pudessem dizer não. Por isto, na minha galeria de mulheres admiráveis estão pensadoras tão diversas quanto Sei Shônagon, Sojourner Truth, Charlotte Perkins-Gilman, Akiko Yosano, Maria Firmina dos Reis. Gilka Machado, Katherine Mansfield, Anna Akhmatova, Florbela Espanca, Angela Davis, Carolina Maria de Jesus, Clarice Lispector, Sylvia Plath, Marianne Moore, Xinran, Sophia de Mello Breyner Andresen, Maria Teresa Horta, Adília Lopes, Lygia Fagundes Telles, Hilda Hilst, Ana Cristina César, Alice Ruiz, Orides Fontella, Márcia Tiburi, Chimamanda Ngozi Adiche, Malala Yousafzai,Maya Angelou, Selva Amada, Isabela Figueiredo, Wisława Szymborska, Conceição Evaristo, Maria Valéria Rezende, Lucia Hiratsuka, Eliane Potiguara, Patrícia Campos Mello e tantas outras. A estas manas e a todas as que fazem parte do Mulherio das Letras, presto reverência por terem me ajudado a me tornar o que sou hoje.
E na minha galeria de mulheres pensadoras admiráveis está também a Marília Kubota! 💕
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